SOBRE GOSTOS E AFEMINAÇÕES


Por Luiz Henrique Coletto

Não curto afeminados. Esta é, provavelmente, uma das frases mais comuns em aplicativos (como Grindr, Scruff e Hornet) e chats voltados para homens gays. Tal ideia provoca sensações diferentes em quem as lê, do incômodo à aquiescência. Afinal, gosto é gosto, não se diz por aí? E não gostar não significa desrespeitar. Este afago na consciência diante de construções como esta (há outras para outros gostos) não passa de uma estratégia confortável para não pensar no tema.

Minha concepção quanto àqueles que empregam tal expressão é de que reproduzem homofobia, homofobia internalizada e misoginia. Entretanto, reconhecendo a existência de uma estratégia muito confortável para subsumir a “repulsa” por afeminados – qual seja, dizer que é “questão de gosto” – quero explorar o contexto social (ou cultural) desta questão de forma mais elaborada.

Foto de capa por Isaac “AYE MIRA” Sanchez  via Flickr

Vivemos numa dada cultura, que não é abstrata ou ideal. E ela pode ser diferenciada, ainda que hoje bem menos em função da globalização e do multiculturalismo, de outras culturas em muitos aspectos. Assim que, por exemplo, o antropólogo Peter Fry fez a primeira teorização sobre a homossexualidade brasileira nos anos 1970, identificando certa estrutura hierárquica de homens/bofes e bichas, que, para ele, não era a mesma do mundo anglo-saxão de onde vinha (Fry é britânico). Os primeiros, ativos, não perdiam necessariamente seus status de homens e o acesso a uma masculinidade heteronormativa; os segundos, passivos, não eram mais homens, tampouco mulheres; eram bichas, e o acesso à masculinidade “ISO 9001″ não era mais possível. Eram bichas.

Isso foi há algumas décadas, muitas críticas foram feitas a tal abordagem, e muita “água teórica” rolou depois (especialmente com a teoria queer). Ainda assim, não é raro encontrar esse sistema classificatório operando em muitos locais do país, inclusive entre homens gays. É inegável que todos que hoje possuem algum grau de esclarecimento sobre a questão precisaram de muito esforço para lutar contra isso, inclusive para pensar sobre suas próprias expressões de gênero, seus corpos e suas práticas sexuais. Só isso, e apenas isso, já é um ponto relevante para o que estou dizendo aqui.

O exemplo acima serve para reiterar a abertura do parágrafo anterior: vivemos numa dada cultura, que não é abstrata ou ideal. Portanto, é nesta cultura que discursos e imagens funcionam, e é tendo-a em vista que analisamos como discursos operam, que ideologias refletem e que relações de poder ajudam a manter. Essa cultura, então, tem atributos muito fortes no que diz respeito ao que estou analisando: ela é machista, ela é heteronormativa e ela é racista. Quero chamar atenção para o machista e heteronormativa ao mesmo tempo, para detalhar: isso significa dizer, então, que é uma cultura antimulheres, antifeminilidade, antifeminização. Como este “anti” opera? Não exatamente como signo de morte (embora também), mas por meio de estruturas hierárquicas que conhecemos muito bem. A este respeito, para além do que estou dizendo, recomendo efusivamente ler um artigo de Gayle Rubin, publicado em 1984, chamado Thinking Sex: Notes for a Radical Theroy of the Politics of Sexuality (uma versão em Português pode ser vista aqui).

Prints de frases publicadas em perfis no aplicativo Grindr. Montagem feita pelo autor.

Bem, tais hierarquias são bem visíveis: tudo que for signo de ou lido como feminino, feminilidade, de mulher ou não masculino é pior que sua “contraparte” masculina. É por isso, portanto, que nesta nossa cultura: gay viril > gay afeminado; e mais: gay viril é sinônimo de gay cuja orientação sexual passe despercebida em função da expressão de gênero muito próxima daquela esperada de homens héteros viris. Não custa lembrar, igualmente, que: hétero viril > gay viril > gay afeminado, hierarquia que reitera a heteronormatividade.

Isso me parece ser relativamente consensual. Então quero seguir por este caminho, tendo em mente estas colocações sobre cultura, para pensar noutros marcadores que são objeto de discussão pelo viés do gosto. Não são raros também perfis em tais aplicativos com algo como “adoro homens ruivos”, “ruivos têm preferência”. Por que isso desperta pouquíssima atenção para um debate sobre gosto? Analisando nossa cultura, com base no que resumi do tema acima, é fácil perceber. Então uma objeção essencial à tentativa de subsumir a defesa de uma expressão homofóbica como “não curto afeminados” ao puro gosto, é ter claro que nem todas as manifestações de gosto carregam consigo uma história, discursos e ideologias preconceituosas. Por que não encontramos, pelo menos não com frequência digna de nota, frases como “não curto homens brutos demais, que cospem no chão e coçam o saco”? Não é uma boa caricatura da exacerbação de certa virilidade tal qual, na forma, a caricatura da exacerbação de certa afeminação da bicha que gesticula pulando no meio da rua? Por que, com tanta força e tantos discursos (“odeio afeminados”; “se for afeminado, nem chama”; “afeminado bloqueio na hora”), um é digno de nota e outro não?

O mesmo cuidado precisa existir ao pensar outro caractere comum neste debate de gosto, que é a negritude. Não se pode equiparar algo como “curto caras negros” com “só curto brancos” ou “adoro ruivos”. Parecem todos do mesmo campo, mas têm pesos muito diferentes. Ainda assim, a própria expressão “curto caras negros” merece cuidados, porque pode significar facilmente um objetificação, certa exotificação de homens negros. Já conversei algumas vezes sobre este tema com amigos negros (daqui e de fora do Brasil), e existem percepções diversas sobre isso. Alguns, efetivamente, sentem-se exotificados. Lembro-me de um amigo, com o qual saí algumas vezes, que me disse: “Luiz, preciso ‘aprender’ a comer, porque os caras vêm falar comigo e querem dar porque sou negro.” Ou seja: tal exotificação, frequentemente, significa o enquadramento do homem negro como “mais viril”, “mais másculo” e bem dotado. Ainda que sejam características que gozam de alto prestígio na nossa cultura, a não correspondência a elas significa não ser “o cara negro”. Por outro lado, ainda que seja exotificador, tal gosto não se equipara com sua negação (“só curto caras brancos”, por exemplo) em termos de linguagem e história. Então este segundo, sem dúvida, é bem racista se comparado com o primeiro, que é potencialmente exotificador.

Dito tudo isso, uma expressão como “não curto afeminados” não reflete apenas mera questão de gosto. Antes de discuti-la em si, deve estar claro o que ela traz consigo toda esta cultura, estes discursos, estas imagens e hierarquias que comentei acima. Já deveria ter sido digno de “pulga na orelha”, enquanto algo socialmente relevante, o fato de muitos discursos como estes existirem, e não seus opostos. Ou seja, deve ser digno de observação o fato de a afeminação ser tão repulsiva entre homens gays; a estratégia fácil de atribuir a isso “questões de gosto” (que não sabemos bem como esmiuçar, e por isso é confortável) é apenas uma máscara para o tema, e para o quanto formas de expressão de gênero são tão centrais para a sexualidade em nossa cultura.

Agora, o que é exatamente alguém afeminado? Certamente existe o “pacote completo”, que é a máxima caricatura. Mas e fora dela, quem escapa? Quem tem “passabilidade hétero”, ou seja, aquele que sempre ouve, quando revela sua homossexualidade, “mas nem parece”? Eu costumo responder a isso, ironicamente ofendido, que nunca quis parecer hétero, afinal, ser gay é ótimo. Gozar dessa passibilidade traz muitas privilégios, sabemos. E quando não se goza dela, sofre-se muito mais. A este propósito, outra recomendação de leitura, agora do Giancarlo Cornejo: La guerra declarada contra el niño afeminado: una autoetnografía “queer”. Então, ao reiterar este tipo de discurso, com variações quaisquer, está-se reiterando esta história, esta hierarquia, o peso desta opressão.

O que mais deveria intrigar é: por que é preciso dizer isso? Se você só sente tesão quando penetrado por um pênis de 22cm, por que é necessário dizer “pau pequeno, vaza”? Esta enunciação não cai no vazio, ela também se relaciona com uma série de outras questões sobre corpo, virilidade, ansiedades e inferiorização de corpos. Ninguém precisa encontrar-se com absolutamente ninguém por quem não tenha desejo. Seja esta razão uma expressão de gênero muito afeminada, um pênis muito pequeno, um peito muito peludo, etc. É possível, entretanto, lidar com isso sem reiterar discursos que se somam a discursos de ódio muito conhecidos.

Tão conhecidos que se repetem: todas as expressões a seguir foram salvas por mim (em prints) nos últimos meses no aplicativo Grindr. São apenas dos que estavam próximos de mim, constituindo-se em amostra minúscula:

“afeminados serão bloqueados”;

“um cara sussa […] não afeminado e que curte homem… menininha não, homem!”;

“odeio bichinha”;

“se for afeminado, nem chama”;

“não curto bichice”;

“#NÃO CURTO AFEMINADO”;

“atv. to fora de miados!”;

“busco real no sigilo e sem afeminação”;

“dispenso menininhas”;

“não curto afeminados. Com td respeito”;

“não curto cara afeminado, fumante ou passivo”;

 “Mt boa pinta, descarto afeminados e assumidos, afim de caras de vida social ht…”;

 “afeminados to fora”;

“não sou e nem curto afeminados”;

“não curto assumidos, nem afeminado e nem pessoas do meio. Se vc é, nem puxe papo”;

“#Afeminados não cliquem no botão azul ali”;

“So curto cara normalzão. N adianta ser sarado e viado”;

“Gosto de macho e não curto afeminados..”;

“caras sem frescura. Afeminados to fora.”;

 “Ñ adianta ser lindo e sarado se for afeminado!”;

“discreto, afeminados nao incomodem”;

“Tem o minimo de afetação? Entao vaza”;

“ñ aos afeminados”.

Os outros (vários) perfis repetem frases iguais ou muito parecidas. Algo cheira muito mal aí. Entre disseminar um discurso homofóbico e com alta carga de preconceito ou ignorar um perfil cujas características não te atraem, ignore. Você só será, no máximo, deselegante.

Neste caso e em outros, nos quais nos deparamos com construções sobre gosto que reiteram discursos sociais que disseminam o ódio, é importante refletir. Em todos nós, existem abismos entre o que se passa na mente e o que verbalizamos e como o fazemos. Reconhecer uma rastro de discursos com certa história e refletir sobre como o endossamos ou não é uma forma relevante de analisar o gosto. E de decidir como vamos nos referir aos outros pela linguagem, como iremos reforçar ou não certas ideologias e como iremos manter ou não certas relações de poder opressivas.

Extraído de Revista Viés

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