Feminismo para homens, um curso rápido

De homem para homem, algumas noções básicas e indispensáveis sobre feminismo.

Por Alex Castro

O texto é longo. Cada uma das subseções poderia facilmente ser um texto independente. Teríamos multiplicado nossos pageviews, mas o conteúdo ficaria disperso e espalhado, difícil de acessar e consultar.

Preferimos publicar tudo de uma vez. Salvem. Leiam aos poucos. Repassem aos amigos. A discussão vai ser longa.

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Jovem emociona ao relatar como disse ao irmão mais novo que é gay

Lucas, 23 anos, decidiu revelar sua orientação sexual para o caçula, de oito.
‘Amor?’, respondeu o menino, levando Lucas às lágrimas; leia o relato.

Por Paula Menezes

O porto-alegrense Lucas Vasconcellos, 23 anos, virou protagonista de uma história de amor e compreensão após postar um texto na internet. O motivo do relato era bastante íntimo: sua orientação sexual. O ex-estudante de Letras e Fonoaudiologia contou para o irmão mais novo, de apenas oito anos, que é gay. A resposta foi tão surpreendente que o post, feito no dia 12 de março, tem mais de 4,4 mil curtidas e quase 600 compartilhamentos.

A decisão de contar a verdade para uma criança não foi fácil. Mas o caçula é uma das pessoas mais importantes de sua vida, aponta Lucas, e ser transparente com ele era um objetivo. A conversa começou quando os dois estavam assistindo a um programa infantil em que duas amigas dão um “selinho”. De maneira pedagógica, o jovem fez uma analogia entre as cores para fazer a revelação.

“Cada um tem suas cores. Há quem gosta mais de preto, ou branco, ou azul. E isso faz o mundo mais legal”, disse o mais velho, após colocar a televisão no mudo. “Tu sabes o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres?”, continuou, quando já estava prestes a contar.

“Amor?”, respondeu o menino, levando Lucas às lágrimas.

Lucas com o irmão (Foto: Arquivo pessoal)

Lucas com o irmão em um passeio (Foto: Arquivo pessoal)

O diálogo terminou com um abraço. A amizade entre os dois seguiu como sempre. Aliás, ficou até melhor. Para Lucas, poder dividir algo tão pessoal e receber uma resposta singela é gratificante.

“Me surpreendeu uma resposta tão sincera e pura. Ele quase nunca me vê chorando, dessa vez me viu e foi um momento de delicadeza e sutileza, com amor, respeito. Eu estava com medo de já terem dito para ele que isso é errado, algo assim. Mas ele é uma das pessoas mais importantes para mim, e se ele me desse uma resposta negativa o que eu esperaria do restante do mundo?”, avalia Lucas.

Os irmãos não moram juntos. A relação com os pais é complicada, por isso Lucas optou por viver na casa dos avós paternos. Ainda que a família apresente restrições, os dois procuram estar sempre juntos. Se divertem ao assistir televisão, brincar e sair para passear. Agora, sem segredos entre eles.

“Minha avó foi professora por 40 anos, então ela conviveu com a minha realidade, é aberta. Meus pais têm preconceito, meu outro irmão, de 18 anos, também”, lamenta. “Meus pais se separaram há um tempo, e me aproximei muito [irmão mais novo] por causa disso. Senti que ele estava com dificuldade de lidar. Nos divertimos juntos e desenvolvemos essa amizade”.

Maioria aprovou

Com tanta repercussão, o post teve a aprovação de muitos leitores. Houve, porém, quem respondesse ao relato de Lucas com comentários negativos. O jovem admite que fica abalado, mas não pensa em recuar.

Para ele, o texto não é apenas sobre uma cena cotidiana. É também para alertar sobre a necessidade de abolir o que Lucas classifica como “discurso de ódio”.

“Várias pessoas se identificaram, me apoiaram e deram suporte. Que eu tenho que ser verdadeiro. Recebi algumas mensagens intolerantes, mas poucas. Respondi com sutileza. Outros questionaram se não era muito cedo. Não exite cedo ou tarde. Quanto mais cedo ensinarmos isso, menos ódio teremos”.

Lucas, que deixou as faculdades que começou a cursar, pensa em ser escritor. De preferência, sempre ligado à causa LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). A pedido do jovem, o rosto do irmão foi borrado nas fotos.

Confira o depoimento de Lucas na íntegra:

Hoje eu contei para o meu irmãozinho que eu era gay.

Após muitos anos desde que descobri a respeito da minha sexualidade, sobre o gênero que desperta uma paixão realmente autêntica em mim, finalmente cheguei a decisão de confiar a minha realidade a essa pessoinha com quem mais me importo na vida.

Dividi isso de maneira bem pedagógica, tentando criar uma analogia sobre as pessoas e suas cores favoritas. Dizendo que têm pessoas que gostam mais de preto, ou branco, ou azul, ou amarelo, ou vermelho; explicando sobre o quão legal isso fazia do mundo. Que todos podemos gostar de cores diferentes, e ainda assim sermos felizes e respeitados ao colorir nosso mundo com elas.

Ele parecia saber que eu ia confessar algo. Mergulhou num estado quieto e pensativo durante a explicação inteira, e então, por fim, resolvi assumir minha sexualidade. Ele continuou me olhando, bem calmo e sorrindo, tão natural, e eu o questionei:

“Tu sabe o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais, John? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres?”

Eu estava preparado para soltar a palavra “gay”, já na ponta da língua quando ele simplesmente me escancara a verdadeira resposta:

“Amor?”

E então eu chorei.

“Não chora”, ele disse me abraçando.

Ele me olhou com aqueles olhos, cheios de inocência e de mesmo tons que os meus, e eu senti que pela primeira vez ele me enxergava como eu realmente era. Um irmão que ele amava, um amigo que ele jamais perderia e, mesmo uma pessoa qualquer com uma preferência diferente por quem se apaixonar, ainda assim uma pessoa igual a qualquer outra.

Eu soube disso pela resposta dele. Pela bondade em cada palavra. Uma criança de oito anos de idade soube encarar algo tão natural com mais maturidade que muito adulto. Mais que meus próprios pais, inclusive, que sempre me negaram o direito de confidenciar isso ao meu irmão.

Aproveitem pra aprender da pureza deles, que a maioria esquece ao crescer, pois eu acho que as maiores verdades dessa vida estão no coração dos pequenos.

E a vida continua como se nada tivesse mudado.

E do fundo do coração, eu agradeço por isso.”

Lucas contou ao irmão de 8 anos sua opção sexual (Foto: Arquivo pessoal)

Lucas contou ao irmão de 8 anos sua orientação sexual (Foto: Arquivo pessoal)

Extraído de G1

SOBRE GOSTOS E AFEMINAÇÕES


Por Luiz Henrique Coletto

Não curto afeminados. Esta é, provavelmente, uma das frases mais comuns em aplicativos (como Grindr, Scruff e Hornet) e chats voltados para homens gays. Tal ideia provoca sensações diferentes em quem as lê, do incômodo à aquiescência. Afinal, gosto é gosto, não se diz por aí? E não gostar não significa desrespeitar. Este afago na consciência diante de construções como esta (há outras para outros gostos) não passa de uma estratégia confortável para não pensar no tema.

Minha concepção quanto àqueles que empregam tal expressão é de que reproduzem homofobia, homofobia internalizada e misoginia. Entretanto, reconhecendo a existência de uma estratégia muito confortável para subsumir a “repulsa” por afeminados – qual seja, dizer que é “questão de gosto” – quero explorar o contexto social (ou cultural) desta questão de forma mais elaborada.

Foto de capa por Isaac “AYE MIRA” Sanchez  via Flickr

Vivemos numa dada cultura, que não é abstrata ou ideal. E ela pode ser diferenciada, ainda que hoje bem menos em função da globalização e do multiculturalismo, de outras culturas em muitos aspectos. Assim que, por exemplo, o antropólogo Peter Fry fez a primeira teorização sobre a homossexualidade brasileira nos anos 1970, identificando certa estrutura hierárquica de homens/bofes e bichas, que, para ele, não era a mesma do mundo anglo-saxão de onde vinha (Fry é britânico). Os primeiros, ativos, não perdiam necessariamente seus status de homens e o acesso a uma masculinidade heteronormativa; os segundos, passivos, não eram mais homens, tampouco mulheres; eram bichas, e o acesso à masculinidade “ISO 9001″ não era mais possível. Eram bichas.

Isso foi há algumas décadas, muitas críticas foram feitas a tal abordagem, e muita “água teórica” rolou depois (especialmente com a teoria queer). Ainda assim, não é raro encontrar esse sistema classificatório operando em muitos locais do país, inclusive entre homens gays. É inegável que todos que hoje possuem algum grau de esclarecimento sobre a questão precisaram de muito esforço para lutar contra isso, inclusive para pensar sobre suas próprias expressões de gênero, seus corpos e suas práticas sexuais. Só isso, e apenas isso, já é um ponto relevante para o que estou dizendo aqui.

O exemplo acima serve para reiterar a abertura do parágrafo anterior: vivemos numa dada cultura, que não é abstrata ou ideal. Portanto, é nesta cultura que discursos e imagens funcionam, e é tendo-a em vista que analisamos como discursos operam, que ideologias refletem e que relações de poder ajudam a manter. Essa cultura, então, tem atributos muito fortes no que diz respeito ao que estou analisando: ela é machista, ela é heteronormativa e ela é racista. Quero chamar atenção para o machista e heteronormativa ao mesmo tempo, para detalhar: isso significa dizer, então, que é uma cultura antimulheres, antifeminilidade, antifeminização. Como este “anti” opera? Não exatamente como signo de morte (embora também), mas por meio de estruturas hierárquicas que conhecemos muito bem. A este respeito, para além do que estou dizendo, recomendo efusivamente ler um artigo de Gayle Rubin, publicado em 1984, chamado Thinking Sex: Notes for a Radical Theroy of the Politics of Sexuality (uma versão em Português pode ser vista aqui).

Prints de frases publicadas em perfis no aplicativo Grindr. Montagem feita pelo autor.

Bem, tais hierarquias são bem visíveis: tudo que for signo de ou lido como feminino, feminilidade, de mulher ou não masculino é pior que sua “contraparte” masculina. É por isso, portanto, que nesta nossa cultura: gay viril > gay afeminado; e mais: gay viril é sinônimo de gay cuja orientação sexual passe despercebida em função da expressão de gênero muito próxima daquela esperada de homens héteros viris. Não custa lembrar, igualmente, que: hétero viril > gay viril > gay afeminado, hierarquia que reitera a heteronormatividade.

Isso me parece ser relativamente consensual. Então quero seguir por este caminho, tendo em mente estas colocações sobre cultura, para pensar noutros marcadores que são objeto de discussão pelo viés do gosto. Não são raros também perfis em tais aplicativos com algo como “adoro homens ruivos”, “ruivos têm preferência”. Por que isso desperta pouquíssima atenção para um debate sobre gosto? Analisando nossa cultura, com base no que resumi do tema acima, é fácil perceber. Então uma objeção essencial à tentativa de subsumir a defesa de uma expressão homofóbica como “não curto afeminados” ao puro gosto, é ter claro que nem todas as manifestações de gosto carregam consigo uma história, discursos e ideologias preconceituosas. Por que não encontramos, pelo menos não com frequência digna de nota, frases como “não curto homens brutos demais, que cospem no chão e coçam o saco”? Não é uma boa caricatura da exacerbação de certa virilidade tal qual, na forma, a caricatura da exacerbação de certa afeminação da bicha que gesticula pulando no meio da rua? Por que, com tanta força e tantos discursos (“odeio afeminados”; “se for afeminado, nem chama”; “afeminado bloqueio na hora”), um é digno de nota e outro não?

O mesmo cuidado precisa existir ao pensar outro caractere comum neste debate de gosto, que é a negritude. Não se pode equiparar algo como “curto caras negros” com “só curto brancos” ou “adoro ruivos”. Parecem todos do mesmo campo, mas têm pesos muito diferentes. Ainda assim, a própria expressão “curto caras negros” merece cuidados, porque pode significar facilmente um objetificação, certa exotificação de homens negros. Já conversei algumas vezes sobre este tema com amigos negros (daqui e de fora do Brasil), e existem percepções diversas sobre isso. Alguns, efetivamente, sentem-se exotificados. Lembro-me de um amigo, com o qual saí algumas vezes, que me disse: “Luiz, preciso ‘aprender’ a comer, porque os caras vêm falar comigo e querem dar porque sou negro.” Ou seja: tal exotificação, frequentemente, significa o enquadramento do homem negro como “mais viril”, “mais másculo” e bem dotado. Ainda que sejam características que gozam de alto prestígio na nossa cultura, a não correspondência a elas significa não ser “o cara negro”. Por outro lado, ainda que seja exotificador, tal gosto não se equipara com sua negação (“só curto caras brancos”, por exemplo) em termos de linguagem e história. Então este segundo, sem dúvida, é bem racista se comparado com o primeiro, que é potencialmente exotificador.

Dito tudo isso, uma expressão como “não curto afeminados” não reflete apenas mera questão de gosto. Antes de discuti-la em si, deve estar claro o que ela traz consigo toda esta cultura, estes discursos, estas imagens e hierarquias que comentei acima. Já deveria ter sido digno de “pulga na orelha”, enquanto algo socialmente relevante, o fato de muitos discursos como estes existirem, e não seus opostos. Ou seja, deve ser digno de observação o fato de a afeminação ser tão repulsiva entre homens gays; a estratégia fácil de atribuir a isso “questões de gosto” (que não sabemos bem como esmiuçar, e por isso é confortável) é apenas uma máscara para o tema, e para o quanto formas de expressão de gênero são tão centrais para a sexualidade em nossa cultura.

Agora, o que é exatamente alguém afeminado? Certamente existe o “pacote completo”, que é a máxima caricatura. Mas e fora dela, quem escapa? Quem tem “passabilidade hétero”, ou seja, aquele que sempre ouve, quando revela sua homossexualidade, “mas nem parece”? Eu costumo responder a isso, ironicamente ofendido, que nunca quis parecer hétero, afinal, ser gay é ótimo. Gozar dessa passibilidade traz muitas privilégios, sabemos. E quando não se goza dela, sofre-se muito mais. A este propósito, outra recomendação de leitura, agora do Giancarlo Cornejo: La guerra declarada contra el niño afeminado: una autoetnografía “queer”. Então, ao reiterar este tipo de discurso, com variações quaisquer, está-se reiterando esta história, esta hierarquia, o peso desta opressão.

O que mais deveria intrigar é: por que é preciso dizer isso? Se você só sente tesão quando penetrado por um pênis de 22cm, por que é necessário dizer “pau pequeno, vaza”? Esta enunciação não cai no vazio, ela também se relaciona com uma série de outras questões sobre corpo, virilidade, ansiedades e inferiorização de corpos. Ninguém precisa encontrar-se com absolutamente ninguém por quem não tenha desejo. Seja esta razão uma expressão de gênero muito afeminada, um pênis muito pequeno, um peito muito peludo, etc. É possível, entretanto, lidar com isso sem reiterar discursos que se somam a discursos de ódio muito conhecidos.

Tão conhecidos que se repetem: todas as expressões a seguir foram salvas por mim (em prints) nos últimos meses no aplicativo Grindr. São apenas dos que estavam próximos de mim, constituindo-se em amostra minúscula:

“afeminados serão bloqueados”;

“um cara sussa […] não afeminado e que curte homem… menininha não, homem!”;

“odeio bichinha”;

“se for afeminado, nem chama”;

“não curto bichice”;

“#NÃO CURTO AFEMINADO”;

“atv. to fora de miados!”;

“busco real no sigilo e sem afeminação”;

“dispenso menininhas”;

“não curto afeminados. Com td respeito”;

“não curto cara afeminado, fumante ou passivo”;

 “Mt boa pinta, descarto afeminados e assumidos, afim de caras de vida social ht…”;

 “afeminados to fora”;

“não sou e nem curto afeminados”;

“não curto assumidos, nem afeminado e nem pessoas do meio. Se vc é, nem puxe papo”;

“#Afeminados não cliquem no botão azul ali”;

“So curto cara normalzão. N adianta ser sarado e viado”;

“Gosto de macho e não curto afeminados..”;

“caras sem frescura. Afeminados to fora.”;

 “Ñ adianta ser lindo e sarado se for afeminado!”;

“discreto, afeminados nao incomodem”;

“Tem o minimo de afetação? Entao vaza”;

“ñ aos afeminados”.

Os outros (vários) perfis repetem frases iguais ou muito parecidas. Algo cheira muito mal aí. Entre disseminar um discurso homofóbico e com alta carga de preconceito ou ignorar um perfil cujas características não te atraem, ignore. Você só será, no máximo, deselegante.

Neste caso e em outros, nos quais nos deparamos com construções sobre gosto que reiteram discursos sociais que disseminam o ódio, é importante refletir. Em todos nós, existem abismos entre o que se passa na mente e o que verbalizamos e como o fazemos. Reconhecer uma rastro de discursos com certa história e refletir sobre como o endossamos ou não é uma forma relevante de analisar o gosto. E de decidir como vamos nos referir aos outros pela linguagem, como iremos reforçar ou não certas ideologias e como iremos manter ou não certas relações de poder opressivas.

Extraído de Revista Viés

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