Jovem emociona ao relatar como disse ao irmão mais novo que é gay

Lucas, 23 anos, decidiu revelar sua orientação sexual para o caçula, de oito.
‘Amor?’, respondeu o menino, levando Lucas às lágrimas; leia o relato.

Por Paula Menezes

O porto-alegrense Lucas Vasconcellos, 23 anos, virou protagonista de uma história de amor e compreensão após postar um texto na internet. O motivo do relato era bastante íntimo: sua orientação sexual. O ex-estudante de Letras e Fonoaudiologia contou para o irmão mais novo, de apenas oito anos, que é gay. A resposta foi tão surpreendente que o post, feito no dia 12 de março, tem mais de 4,4 mil curtidas e quase 600 compartilhamentos.

A decisão de contar a verdade para uma criança não foi fácil. Mas o caçula é uma das pessoas mais importantes de sua vida, aponta Lucas, e ser transparente com ele era um objetivo. A conversa começou quando os dois estavam assistindo a um programa infantil em que duas amigas dão um “selinho”. De maneira pedagógica, o jovem fez uma analogia entre as cores para fazer a revelação.

“Cada um tem suas cores. Há quem gosta mais de preto, ou branco, ou azul. E isso faz o mundo mais legal”, disse o mais velho, após colocar a televisão no mudo. “Tu sabes o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres?”, continuou, quando já estava prestes a contar.

“Amor?”, respondeu o menino, levando Lucas às lágrimas.

Lucas com o irmão (Foto: Arquivo pessoal)

Lucas com o irmão em um passeio (Foto: Arquivo pessoal)

O diálogo terminou com um abraço. A amizade entre os dois seguiu como sempre. Aliás, ficou até melhor. Para Lucas, poder dividir algo tão pessoal e receber uma resposta singela é gratificante.

“Me surpreendeu uma resposta tão sincera e pura. Ele quase nunca me vê chorando, dessa vez me viu e foi um momento de delicadeza e sutileza, com amor, respeito. Eu estava com medo de já terem dito para ele que isso é errado, algo assim. Mas ele é uma das pessoas mais importantes para mim, e se ele me desse uma resposta negativa o que eu esperaria do restante do mundo?”, avalia Lucas.

Os irmãos não moram juntos. A relação com os pais é complicada, por isso Lucas optou por viver na casa dos avós paternos. Ainda que a família apresente restrições, os dois procuram estar sempre juntos. Se divertem ao assistir televisão, brincar e sair para passear. Agora, sem segredos entre eles.

“Minha avó foi professora por 40 anos, então ela conviveu com a minha realidade, é aberta. Meus pais têm preconceito, meu outro irmão, de 18 anos, também”, lamenta. “Meus pais se separaram há um tempo, e me aproximei muito [irmão mais novo] por causa disso. Senti que ele estava com dificuldade de lidar. Nos divertimos juntos e desenvolvemos essa amizade”.

Maioria aprovou

Com tanta repercussão, o post teve a aprovação de muitos leitores. Houve, porém, quem respondesse ao relato de Lucas com comentários negativos. O jovem admite que fica abalado, mas não pensa em recuar.

Para ele, o texto não é apenas sobre uma cena cotidiana. É também para alertar sobre a necessidade de abolir o que Lucas classifica como “discurso de ódio”.

“Várias pessoas se identificaram, me apoiaram e deram suporte. Que eu tenho que ser verdadeiro. Recebi algumas mensagens intolerantes, mas poucas. Respondi com sutileza. Outros questionaram se não era muito cedo. Não exite cedo ou tarde. Quanto mais cedo ensinarmos isso, menos ódio teremos”.

Lucas, que deixou as faculdades que começou a cursar, pensa em ser escritor. De preferência, sempre ligado à causa LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). A pedido do jovem, o rosto do irmão foi borrado nas fotos.

Confira o depoimento de Lucas na íntegra:

Hoje eu contei para o meu irmãozinho que eu era gay.

Após muitos anos desde que descobri a respeito da minha sexualidade, sobre o gênero que desperta uma paixão realmente autêntica em mim, finalmente cheguei a decisão de confiar a minha realidade a essa pessoinha com quem mais me importo na vida.

Dividi isso de maneira bem pedagógica, tentando criar uma analogia sobre as pessoas e suas cores favoritas. Dizendo que têm pessoas que gostam mais de preto, ou branco, ou azul, ou amarelo, ou vermelho; explicando sobre o quão legal isso fazia do mundo. Que todos podemos gostar de cores diferentes, e ainda assim sermos felizes e respeitados ao colorir nosso mundo com elas.

Ele parecia saber que eu ia confessar algo. Mergulhou num estado quieto e pensativo durante a explicação inteira, e então, por fim, resolvi assumir minha sexualidade. Ele continuou me olhando, bem calmo e sorrindo, tão natural, e eu o questionei:

“Tu sabe o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais, John? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres?”

Eu estava preparado para soltar a palavra “gay”, já na ponta da língua quando ele simplesmente me escancara a verdadeira resposta:

“Amor?”

E então eu chorei.

“Não chora”, ele disse me abraçando.

Ele me olhou com aqueles olhos, cheios de inocência e de mesmo tons que os meus, e eu senti que pela primeira vez ele me enxergava como eu realmente era. Um irmão que ele amava, um amigo que ele jamais perderia e, mesmo uma pessoa qualquer com uma preferência diferente por quem se apaixonar, ainda assim uma pessoa igual a qualquer outra.

Eu soube disso pela resposta dele. Pela bondade em cada palavra. Uma criança de oito anos de idade soube encarar algo tão natural com mais maturidade que muito adulto. Mais que meus próprios pais, inclusive, que sempre me negaram o direito de confidenciar isso ao meu irmão.

Aproveitem pra aprender da pureza deles, que a maioria esquece ao crescer, pois eu acho que as maiores verdades dessa vida estão no coração dos pequenos.

E a vida continua como se nada tivesse mudado.

E do fundo do coração, eu agradeço por isso.”

Lucas contou ao irmão de 8 anos sua opção sexual (Foto: Arquivo pessoal)

Lucas contou ao irmão de 8 anos sua orientação sexual (Foto: Arquivo pessoal)

Extraído de G1

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Não, meu filho de 10 anos não está procurando uma namorada. Ele gosta de meninos

No início deste semestre, a escola de nossos filhos mandou para casa uma lista de clubes extracurriculares disponíveis aos estudantes. Meu marido sentou-se com a lista e nossos dois filhos que frequentam a escola elementar. Eles poderiam escolher qualquer clube. Nosso filho do meio, que está na 2ª série este ano e é um adorável nerd, escolheu o clube de jogos de tabuleiro.

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Injustiça

“— Não confie na frase de sua avó, de sua mãe, de sua irmã de que um dia encontrará um homem que você merece. Não existe justiça no amor. O amor não é censo, não é matemática, não é senso de medida, não é socialismo. É o mais completo desequilíbrio. Ama-se logo quem a gente odiava, quem a gente provocava, quem a gente debochava. Exatamente o nosso avesso, o nosso contrário, a nossa negação. O amor não é democrático, não é optar e gostar, não é promoção, não é prêmio de bom comportamento. O melhor para você é o pior. Aquele que você escolhe infelizmente não tem química, não dura nem uma hora. O pior para você é o melhor. Aquele de quem você procura distância é que se aproxima e não larga sua boca. Amor é engolir de volta os conselhos dados às amigas. É viver em crise: ou por não merecer a companhia ou por não se merecer. Amor é ironia. Largará tudo — profissão, cidade, família — e não será suficiente. Aceitará tudo — filhos problemáticos, horários quebrados, ex histérica — e não será suficiente. Não se apaixonará pela pessoa ideal, mas por aquela que não conseguirá se separar. A convivência é apenas o fracasso da despedida. O beijo é apenas a incompetência do aceno. Amar talvez seja surdez, um dos dois não foi embora, só isso; ele não ouviu o fora e ficou parado, besta, ouvindo seus olhos. Amor é contravenção. Buscará um terrorista somente para você. Pedirá exclusividade, vida secreta, pacto de sangue, esconderijo no quarto. Apagará o mundo dele, terá inveja de suas velhas amizades, de suas novas amizades, cerceará o sujeito com perguntas, ameaçará o sujeito com gentilezas, reclamará por mais espaço quando ele já loteou o invisível. Ninguém que ama percebe que exige demais; afirmará que ainda é pouco, afirmará que a cobrança é necessária. Deseja-se desculpa a qualquer momento, perdão a qualquer ruído. Amar não tem igualdade, é populismo, é assistencialismo, é querer ser beneficiado acima de todos, é ser corrompido pela predileção, corroído pelo favoritismo. É não fazer outra coisa senão esperar algum mimo, algum abraço, algum sentido. Amor não tem saída: reclama-se da rotina ou quando ele está diferente. É censura (Por que você falou aquilo?), é ditadura (Você não devia ter feito aquilo!). É discutir a noite inteira para corrigir uma palavra áspera, discutir metade da manhã até estacionar o silêncio. Amor é uma injustiça, minha filha. Uma monstruosidade. Você mentirá várias vezes que nunca amará ele de novo e sempre amará, absolutamente porque não tem nenhum controle sobre o amor.”

Fabrício Carpinejar