EU ESCOLHI SER GAY

EU ESCOLHI SER GAY

Fabricio Longo

   Por Fabricio Longo

A única “opção sexual” que fiz na vida foi por ser feliz. Não escolhi ter desejos homossexuais e talvez o menino assustado que fui jamais tivesse feito essa opção, se lhe fosse dado tal poder. É evidente que  todas as dúvidas se dissiparam no instante em que meus lábios chup… beijaram outro homem, mas aí tive que lidar com a percepção alheia de que “escolhi ser assim”. Não escolhi. Porém hoje, sem dúvida, escolheria!

Essa opção pela felicidade não é fruto de uma rebeldia ou de um senso de orgulho inerentes a mim. O ser humano tem um fetiche pelo “natural”, que procura explicar toda e qualquer coisa ou como determinações genéticas ou por dádivas divinas, de acordo com o gosto do freguês. A graça, ao que parece, é “desculpar” nossas atitudes, escolhas e inclinações como se uma força invisível – ou mística ou palpável – controlasse nossas vidas.

Eu até acredito nisso também, mas chamo essa força de Jedi Cultura.

O que definiu alguns comportamentos como masculinos e femininos, e dividiu práticas sexuais em brasões identitários foi a Cultura. Foi ela – esse acervo crescente de códigos e de linguagens das relações entre as pessoas – que apontou meu desejo e o batizou de “homossexual”, criando a oposição com o que aceitava como “normal”. Depois, ela disse que a palavra “gay” poderia sintetizar uma série de informações combinadas à prática da homossexualidade, para então conseguir identificar e catalogar o que seria um “homem gay”.

Meu “pulso mole”, que fazia com que eu “falasse com as mãos” como um pequeno aprendiz de Carmen Miranda era apenas o meu jeitinho ou era um comportamento adquirido? E a minha voz fina, o gosto por roupinhas de hipster e a loucura pelas Spice Girls? O que é genuíno? Será que alguma coisa é “de nascença”, ou desde minha primeira infância venho me enquadrando em um padrão definido por outros para ilustrar – fora da cama – os meus desejos sexuais? E mais importante, quem foi o infeliz que inventou que essas ou aquelas coisas seriam “de viado”, enquanto arrotar e coçar o saco seriam grandes provas de masculinidade?

As coisas não tem gênero. Até as pessoas, que se apegam ao binarismo macho/fêmea de maneira ferrenha, transitam entre os códigos sociais e performances designados para esses pólos de maneira fluida. Há casos de pessoas trans, mas mesmo o mais machão dos “amigos da pelada” tem atitudes que são culturalmente atribuídas às mulheres, assim como uma mocinha romântica pode se ver obrigada a trocar um pneu. É bobo. Rosa e azul. Contudo, o povo insiste.

É por causa dessa mania tão humana de definir e de oprimir seu semelhante que os “diferentes” se rebelam.

Ora, eu posso ser acusado de “me fazer de vítima” ou de “querer aparecer”, mas a verdade é que se não fosse alguém me apontar e destacar minha diferença, jamais a teria percebido. Para mim, eu simplesmente era. O quê, foi escolhido pelos outros. Homossexual, bicha, gay ou viado… Sempre uma escolha do outro. E é exatamente por isso que hoje essa é uma escolha minha.

Esse texto pode ser lido como um grande manifesto ativista ou uma coleção de mimimi, assim como a parada LGBT e expressões artísticas como o drag são alvo tanto de amor quanto de ódio. A questão é que graças à cultura de opressão, absolutamente tudo que é gay, lésbico, bi ou trans se faz político, seja essa a intenção dos indivíduos ou não. Somos diferentes porque os “normais” precisaram se diferenciar para afirmar a própria normalidade. É por isso que a nossa existência – tão normal – incomoda. Ela reafirma que humanos são diferentes e, portanto, iguais. O “corpo gay” é sempre político.

Eu poderia não ter satisfeito meus desejos. Poderia não ter aceitado os nomes que me davam. Poderia até ter me matado, como tantos fazem. Mas sei lá, de repente nasci rebelde mesmo. Escolhi que quem manda na minha identidade sou eu. Escolhi ser gay.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Publicado em: Os Entendidos

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