“Afaste sua criança do meu gay!”

As crianças, coitadas, não podem ver nada. Beijo gay, nudez, debate político… Nada é pra criança. O engraçado é que religião e novela são permitidas, mas tal julgamento de valor não me compete, sei lá. Sempre escutei que se educa uma criança pro mundo, mas nunca entendi que mundo era esse onde não tinha nada.

O meu gay nasceu com cerca de 3 quilos e uns 50 cm de tamanho. Era muito fofo, o meu gay. Naquela época, ninguém sabia que ele existia porque não fazíamos muita coisa, então levou uns três anos até ele começar a aparecer. Era muito grudado na mãe, o meu gay, e desenhava tão bem! Será que ia virar artista, esse gay?
Ele queria uma boneca. Não pode, amor. Ele não entendia isso de jeito nenhum! Pedia a boneca das coleguinhas emprestado e chorava quando, além de negar, elas ainda o xingavam. A mamãe teve que ir conversar na escola por causa do meu gay. Olha a vergonha! Tem que mandar esse gay para uma psicótica! Não, não, chama “psicóloga”, gay. Essa tia tem umas bonecas diferentes, de pano, que tiram bebês da barriga. É assim que nascem os gays também? Sim, das meninas. Você é homem.
Que história foi essa de pedir uma Barbie pro Papai Noel?! Senhorito, fique sabendo que o Papai Noel é a mamãe e que se ela não comprou uma boneca durante o ano, não será agora no natal que vai comprar! Você não quer a faca do Rambo?
Com seis anos, meu gay foi pra Disney. Como sempre, ele fez vergonha. Tirava todas as fotos imitando a pequena sereia! No começo as pessoas até achavam engraçadinho, mas depois percebiam que “havia algo de errado” com o meu gay e falavam isso para a mamãe, só pra deixá-la preocupada. Era muito insistente esse gay! Foram vários psicólogos, castigos, palmadas e até macumba, mas ele continuava lá. Ganhou uma boneca – e depois 400 – pra ver se sossegava, mas aí ele já estava crescido e queria me dominar. A religião não aceitava meu gay, então ele prontamente me fez abandonar Deus – ao que sou grato, confesso. Estava impossível esse gay! É claro que eu já sabia que ele existia e tal, mas não tinha coragem de admitir. Só que nesse início de adolescência ele já estava forte demais e conseguiu me convencer. Tornamo-nos cúmplices.
Precisei proteger o meu gay dos outros jovens porque se eu desse tal liberdade, eles o atacariam. Meu gay não tinha culpa de nada daquilo, eu sabia perfeitamente que ele tinha sido sempre assim. Acontece que as outras crianças não tinham nenhuma informação sobre o meu ou qualquer outro gay. Era algo feio, escondido, diferente… Claro, era mais fácil hostilizar. Nós ficamos quietinhos, com medo, até que ele me aprontou a última: se apaixonou! Como é que eu ia segurar isso? Foi mais forte que eu, é óbvio, e os amigos perceberam.
Tive que libertar o meu gay e jogá-lo no mundo, e foi aí que aconteceu a coisa mais maravilhosa e inesperada de toda essa história: apaixonamo-nos um pelo outro! No começo estávamos meio tímidos, mas aos poucos fomos ficando mais à vontade e percebendo nossas qualidades. Durante anos elas ficaram soterradas pelo desprezo que o meu gay inspirava, mas agora podia finalmente perceber que por causa dele, eu era mais forte. Que por causa do meu gay tinha amadurecido mais rápido, pensado mais, lido mais, e que ao contrário do que as pessoas sempre me disseram ele não me fazia pior e sim melhor. Eu passei a ter ORGULHO do meu gay e ele ficou tão surpreso com esse sentimento novo que multiplicou meus amigos, amores e experiências, se tornando FABULOSO! Enfim, nós viramos um.
Então, por favor, não diga que não posso beijar um namorado no cinema porque sua criança está lá, ou que se ela me vir de mãos dadas com outro homem ficará confusa e traumatizada. Não diga que não tenho os mesmos direitos que ela, até porque você não sabe se sua criança não está escondendo o gay dela também. Evite dizer que eu vou para o inferno, pois se ele existir, suspeito que os que julgam as pessoas tenham lugar cativo. Que tal explicar o porquê do beijo gay da novela ter sido tratado como a queda do muro de Berlim? E se alguém está nu, não é mais coerente dar um crédito para sua criança e agir com naturalidade, já que todo mundo nasce pelado?
Se as crianças são criadas para o mundo, por que as impedimos de conhecê-lo e pensar sobre ele? Por que tudo vira tabu ou precisa trocar de horário? O que merece censura é o preconceito, a maldade e o desrespeito. Foram essas coisas, muitas vezes praticadas por crianças, que fizeram o meu gay sofrer e, em contrapartida, tornaram-no mais forte. Não seria mais lógico censurar as crianças?
 Por Fabricio Longo 
Visto no Brasil Post
(Texto publicado originalmente no blog Os Entendidos)
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